Ecos de uma episteme interdita
Arthur Bispo do Rosário e a Organização Redentora do Conhecimento – um louco desejo
Palavras-chave:
epistemologia, classificação, Organização do Conhecimento, Organização Redentora do Conhecimento, Arthur Bispo do RosárioResumo
A partir do desejo de redenção que atravessa toda a classificação de Arthur Bispo do Rosário, o texto aborda o tema da interdição da episteme da loucura e sua interlocução com a organização do conhecimento. De perspectiva mística, a classificação do artista sergipano é apresentada tendo em vista a epifania que o acometeu na véspera do Natal de 1938 e o legou a tarefa de “representar toda a vida na Terra”. A pergunta de partida é: fundado na desrazão, na desorientação linguística e na redenção humana, como, ao inventariar o mundo, Arthur Bispo do Rosário (re)classifica-o e (re)ordena-o informacionalmente para o seu fim? O objetivo geral do texto é investigar como Arthur Bispo do Rosário orientava-se através de procedimentos epistêmicos de inventariamento para a construção da sua Organização Redentora do Conhecimento (ORC). A metodologia é natureza qualitativa e exploratória, perante a escassez de literatura no campo sobre o assunto. Os métodos de coleta são os oriundos da documentação indireta, em específico, as pesquisas bibliográfica e documental. Como resultado, argumentamos que a abordagem pragmático-teológica da ORC de Arthur Bispo do Rosário apresenta-se como um phármakon, uma escritura marcada pela ambiguidade da vida, em suas privações e recomposições criativo-desejantes. Ao final, sugerimos que o ato classificatório de Arthur Bispo do Rosário pode ser lido como uma força epistêmica de transformação para os estudos informacionais: um delírio do verbo informar.
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