Genealogia da Materialidade
Da Substância à Ontologia Documentária
Palavras-chave:
Materialidade Documental, Bernd Frohmann, Neodocumentação, Epistemologia da Ciência da Informação., Ontologia DocumentáriaResumo
A compreensão da materialidade da informação exige superar a descorporificação dos processos documentais, bem como a herança semântica mecanicista que associa o conceito matéria a um suporte físico inerte. Diante disso, este artigo analisa os deslocamentos epistemológicos que forjaram o conceito, desde as raízes clássicas até sua apropriação contemporânea no âmbito das ciências da informação e da documentação pela perspectiva de Bernd Frohmann. Trata-se de um ensaio teórico-analítico de viés genealógico que mapeia as rupturas do lócus material: da substância hilemórfica na Antiguidade e na Escolástica, passando pelo mecanicismo cartesiano e pela infraestrutura no materialismo histórico-dialético, até as práticas discursivas foucaultianas e a ontologia documentária de Frohmann. Os resultados demonstram que a neodocumentação frohmanniana operacionaliza a microfísica foucaultiana nas práticas informacionais. Para articular sua ontologia documentária, que entende o documento como produtor de realidade, o autor transpõe a equivalência entre massa e energia da física moderna: a estabilidade institucional do documento atua como força ativa, com agência autônoma capaz de produzir efeitos concretos. Conclui-se que o reconhecimento dessa agência material oferece uma lente heurística para a área e provoca uma urgência ética e política, atestando que as práticas documentárias constituem categorias, forjam sujeitos e regulam o mundo social.
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