Ontologia colonial e decolonial sobre a mandioca e seus rituais no Ashaninka

Autores

  • Nina Gomes Sobral Barcellos D'Almeida Universidade Federal Fluminense (UFF)
  • Linair Maria Campos Universidade Federal Fluminense (UFF)

Palavras-chave:

Ontologias, Colonialidade, Decolonialidade, Organização do conhecimento, Epistemologias indígenas

Resumo

Investiga-se como a visão colonial, ao impor modelos hegemônicos de representação, contribui para o apagamento de saberes indígenas e para a marginalização de suas epistemologias nos sistemas de organização do conhecimento. A partir do estudo do cultivo e dos usos rituais da mandioca entre os Ashaninka, analisam-se tensões entre perspectivas coloniais e decoloniais, demonstrando como diferentes ontologias impactam a forma como conhecimentos tradicionais são interpretados, registrados e difundidos. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, exploratória e bibliográfica, apoiada em análise de conteúdo e na técnica imagining, que orienta a reconstrução de epistemologias indígenas sem a imposição de categorias ocidentais. São apresentados dois modelos ontológicos ilustrativos: um orientado por pressupostos coloniais, que reduz e homogeneíza elementos centrais da cosmovisão Ashaninka, e outro fundamentado em uma abordagem decolonial, que busca preservar relações cosmológicas, categorias locais e dimensões míticas essenciais ao domínio estudado. A comparação entre os modelos evidencia como instrumentos de organização do conhecimento podem atuar tanto como mecanismos de apagamento quanto como ferramentas de valorização de saberes tradicionais. Conclui-se que a construção de representações informacionais sensíveis às ontologias indígenas é fundamental para práticas de organização do conhecimento comprometidas com a pluralidade epistêmica e a justiça cognitiva.

 

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Biografia do Autor

Nina Gomes Sobral Barcellos D'Almeida, Universidade Federal Fluminense (UFF)

Possui graduação em Biblioteconomia e Documentação, mestrado e doutorado em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense. Desenvolve estudos e pesquisas com ênfase em Organização e Representação do Conhecimento. Possui interesse em temas como: elaboração de sistemas de organização do conhecimento em ambientes interdisciplinares e cooperativos, objetos de fronteira, tecnologias web, web semântica, justiça social, ética em Organização do Conhecimento e fundamentos teóricos da Ciência da Informação. 

Linair Maria Campos, Universidade Federal Fluminense (UFF)

Possui graduação em Informática, mestrado em Informática pela Universidade Federal do Rio de Janeiro / NCE (2004) e Doutorado em Ciência da Informação pelo convênio UFF/IBICT (2011). Professora associada do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal Fluminense e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal Fluminense. Tem experiência de mais de 20 anos na área de Ciência da Computação. Pesquisa os seguintes temas: organização e representação do conhecimento, ontologias, tecnologias web, dados interligados abertos, objetos de fronteira.

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Publicado

2026-03-23

Como Citar

D'Almeida, N. G. S. B., & Campos, L. M. (2026). Ontologia colonial e decolonial sobre a mandioca e seus rituais no Ashaninka. Tendências Da Pesquisa Brasileira Em Ciência Da Informação, 19(1). Recuperado de https://revistas.ancib.org/tpbci/article/view/784