Ontologia colonial e decolonial sobre a mandioca e seus rituais no Ashaninka
Palavras-chave:
Ontologias, Colonialidade, Decolonialidade, Organização do conhecimento, Epistemologias indígenasResumo
Investiga-se como a visão colonial, ao impor modelos hegemônicos de representação, contribui para o apagamento de saberes indígenas e para a marginalização de suas epistemologias nos sistemas de organização do conhecimento. A partir do estudo do cultivo e dos usos rituais da mandioca entre os Ashaninka, analisam-se tensões entre perspectivas coloniais e decoloniais, demonstrando como diferentes ontologias impactam a forma como conhecimentos tradicionais são interpretados, registrados e difundidos. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, exploratória e bibliográfica, apoiada em análise de conteúdo e na técnica imagining, que orienta a reconstrução de epistemologias indígenas sem a imposição de categorias ocidentais. São apresentados dois modelos ontológicos ilustrativos: um orientado por pressupostos coloniais, que reduz e homogeneíza elementos centrais da cosmovisão Ashaninka, e outro fundamentado em uma abordagem decolonial, que busca preservar relações cosmológicas, categorias locais e dimensões míticas essenciais ao domínio estudado. A comparação entre os modelos evidencia como instrumentos de organização do conhecimento podem atuar tanto como mecanismos de apagamento quanto como ferramentas de valorização de saberes tradicionais. Conclui-se que a construção de representações informacionais sensíveis às ontologias indígenas é fundamental para práticas de organização do conhecimento comprometidas com a pluralidade epistêmica e a justiça cognitiva.
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